FELIZ DE SER EU


Apresento este manifesto e solicito, peço encarecidamente, imploro, suplico, deixe-nos ser o quisermos ser, como e quando quisermos, e mais, do jeito que somos.

Vocês já devem estar fazendo aquela cara torta, pensando "lá vem mais uma chata empunhando a bandeira do feminismo, do politicamente correto, do direito dos animais, do vegetarianismo e veganismo, ou qualquer coisa que o valha.".

Não, se enganou, passou longe, eu não carrego bandeiras, não defendo teses, não estou de acordo com este ou aquele ponto de vista, não estou aqui ou ali. Não, eu sou do misto, sou do todo, sou dos muitos e dos poucos também, sou deste e daqueles, sou do ontem e do amanhã, sou do sim, do não e principalmente do talvez, não estou em nenhum extremo. Quer me encontrar? Me procure no meio do mundo.

Evoco destemidamente o direito de ser como sou, como quero ser, como é possível ser, evoco sobretudo a liberdade de estar feliz como sou e com o que tenho e não ser taxada por isso de desleixada, conformada, passiva submissa, maria vai com as outras, etc etc etc.

Sim, acreditem, é possível ser feliz, muito feliz sendo quem se é, sem por nem tirar nada, sem fazer mais uma pós ou uma nova graduação, sem ter a carreira mais bem sucedida do mundo, sem viajar 3 vezes por ano para o exterior, sem postar no Facebook, no Instagram, sem twittar, sem fazer um Snapchat, sem fazer plástica ou alisar os cabelos, sem dietas mirabolantes ou malhação miraculosa, enfim, é possível ser feliz fora dos padrões chamados de "normais"... Experimente, tente, faça diferente, de repente você gosta!

Entendam de uma vez por todas que nem todo mundo no mundo quer ser magro, loiro, liso, gostoso, rico, empresário, padrão de beleza, namorar para casar, ter filhos, fazer amor livre, ter cabelo azul, ser feminista, de esquerda ou de direita e outras tantas coisas mais. Algumas pessoas querem apenas ser do jeitinho que são, exatamente como estão agora, não fazem parte desse ou daquele movimento, nem querem fazer, e pasmem, gostam dessa condição, estão satisfeitos.

Às vezes, parece que as escolhas dos "sem grupo definido" causam repulsa, rendem críticas ferrenhas, mal estar, desconforto e até um certo ódio, coberto pelo véu das imposições às avessas, paradoxalmente, numa fase de "assuma ser como é e ame-se assim", ainda enfrentamos a ditadura do "ter de ser".

Se sou mulher e não trabalho fora, sou fútil, apenas mais uma dona de casa manipulada pelo rolo compressor do machismo. Não posso ter decido ser dona de casa e estar feliz com essa posição?

Se uso short curto, sou puta, mas se me visto de forma discreta, faço parte do falso moralismo e automaticamente sou taxada com "bela, recatada e do lar".

Se sou gostosa e adoro expor meu corpo, dizem que me comporto como um pedaço de carne que só pensa em malhar e alimentar a lasciva masculina, por outro lado, se sou engajada, sou uma feminista chata que procura pêlo em ovo.

Se resolvi trabalhar e ser uma mulher de sucesso, sou fria, masculina, mal amada, mal comida.

Se me arrumo, gosto de estar na moda e de novas tendências, sou patricinha acéfala, em contrapartida, se não depilo o corpo, não tinjo os cabelos e não ligo para roupas, sou hippie suja.

Se sou feliz, sou uma boba sem senso crítico, rio de tudo e devo estar drogada, porque gente normal não é assim. Por outro lado, se estou triste, sou mal humorada e só dou patada nos outros, devo estar depressiva.

Se sou malhado, tomo bomba, meu pau não sobe ou sou a doida da batata doce, mas se cuido da alimentação, busco algo mais natural, tô dando de Bela Gil para cima da galera.

Se sou magro, sou doente, devo ser anoréxico, mas se sou gordo, sou descuidado, desleixado, quase asqueroso.

Dia desses li num site qualquer que as mulheres odeiam quando seus namorados engordam e que acham o seguinte: "Se vocês não se cuidam, outros homens ficarão mais interessantes aos nossos olhos.".

Primeiro, quem disse que "mulheres" pensam assim, e só assim? Segundo, quem acha que gordo não se cuida, e por quê? Conheço muitos gordos que se cuidam e muito, além do mais, desde quando magreza é sinônimo de cuidado?

Não entendo de onde vem essa fúria para afastar os diferentes de nós do nosso campo de visão. De onde tiraram essa ideia estapafúrdia de que a forma física ou qualquer outro aspecto isoladamente é reflexo de boa saúde?

Mais que a boa forma, ou o que conhecemos por ela, nossos conceitos, ações e escolhas, sem sombra de dúvidas, refletem nossa saúde mental e emocional.

Parem! Já chega de impor extremos a todos o tempo todo! Somos diferentes, ainda bem!!!

Torço por um mundo com menos extremos, nem direita, nem esquerda. Cadê a coluna do meio? Riscaram ela do mapa?

Por que não estar ali no meio e me servir disso ou daquilo que me interessa independente de que ponta extrema ele esteja? Por que para ser uma coisa não posso ser outra também, não posso ser todas? Quem inventou que quando sou uma coisa, automaticamente me excluo das demais e vice-versa?

Por que enquadrar, encaixotar, rotular, impor esta postura em detrimento daquela?

Isso é ser livre e ter opinião e não estar em cima do muro? Não, isso é impor um conceito limitado à liberdade. Livre é poder escolher, é ser o que quiser, na hora que quiser, livre é poder transitar entre os grupos de maneira leve e fluída, sem ter de se submeter a rótulos e moldes em série do que é considerado correto.

Quero um mundo com mais gordos, gostosos, malhados, magros, empresários, hippies, mulheres empreendedoras, homens donos de casa, encaracolados, loiros, negros, ondulados, morenos, altos, baixos, lisos, donas de casas, mulheres mães, mulheres sem filhos, depiladas, cabeludas, amantes livres, amores românticos, contos de fadas e histórias de terror. Quero um mundo com mais. Que venham os mais cada vez mais, aliás quanto mais, melhor.

Clamo para que o padrão seja ser fora do padrão, abaixo ao isso ou aquilo, ao preto ou branco. Quero mesmo é uma vida com mais tons de cinza, rosa, vermelho, verde, pink, fucsia, bege, roxo, azul, amarelo. Uma vida com mais respeito aos muitos, com muito mais respeito a todos!

Paula Maria

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