BRIGA À VISTA

 

Dia desses estava pensando por que as pessoas se desentendem, discutem e acabam brigando.
 
Comecei a refletir e exercitar meu olhar de forma expandida para esses tais desentendimentos, olhei a fundo, queria achar a raiz, a origem e entender por que coisas em geral motivam brigas, por que simplesmente esses algos não podem acontecer sem causar devastação ao redor? O que acontece, o que liga nas pessoas quando um algo acontece ou deixa de acontecer que acaba resultando numa briga?
 
Esmiucei, esmiucei e acabei concluindo que o motivador da briga não é o tal fato que aconteceu ou que não aconteceu, mas as expectativas dos envolvidos.
 
Todos temos expectativas, elas podem ser ótimas e motivadoras quando são encaradas apenas como possibilidades, ruins e limitadoras quando encabrestam nosso olhar.
 
Quando alcançamos as tais expectativas, lindo, subimos no pódio e aproveitamos os louros. Mas e quando não alcançamos? Aí mora o perigo...
 
Expectativa frustada causa dor e dói mais ainda quando acreditamos que temos culpa por isso, aí a frustração é ainda maior. Neste momento, fica mais fácil, mais simples de carregar a culpa se a dividimos com alguém, é nesse exato momento que parimos a briga, quando jogamos para o outro uma parcela da culpa que carregamos pelas nossas expectativas frustadas.
 
Afinal de contas, se tive culpa, fulano também teve, se não no evento de hoje, no de ontem que me deixou triste e magoada, pensativa e me fez agir desse ou daquele jeito, que acabou originando o tal evento frustante.
 
Isso acontece porque somos movidos por culpas, temos que acertar, não podemos nos enganar, temos que escolher, que decidir e enxergar sempre a saída correta, ainda não aprendemos que não há saídas corretas ou erradas, há apenas saídas, que escolhemos exercitando o livre arbítrio e assumindo a responsabilidade pelo resultado que vier.
 
Acontece que, em meio a tudo isso, criamos expectativas, fechamos numa única possibilidade e a perseguimos loucamente, e caso ela não seja alcançada do exato tamanho que nossa cabeça elaborou, automaticamente estará errado.
 
Se está errado, me frusto, consequentemente a frustração traz culpa, quando sinto culpa, sinto dor.
 
Se dói, tenho que me livrar, para me livrar, encontro um responsável, um bode expiatório que pode ou não ter contribuído para a frustração, não importa, é preciso direcionar para alguém, dividir, livrar-se da dor ou pelo menos amenizá-la.
 
Por que fazemos isso? Por que tem que haver um culpado? Por que simplesmente não encarar que coisas acontecem o tempo todo? Algumas gosto, outras não e tudo bem, esse é o fluxo da existência.
 
As coisas apenas são, boas ou más são qualidades que dependem do contexto, do olhar, do momento...
 
Por que não aceitar sem culpa que sim, errei, não rolou, era assim e fiz assado e tá legal, eu conserto, faço diferente. 
 
Por que se mortificar? Por que fabricar uma dor tão intensa, algo que nem consigo carregar, algo que preciso jogar no colo dos outros para conseguir me sentir melhor?
 
Por que para nos sentirmos melhores e termos razão, precisamos de um culpado, de alguém que fez mais errado que nós, alguém que seja pior que nós? E o mais importante, por que temos de ter razão?
 
Às vezes, tenho a impressão que a humanidade precisa do sofrimento para continuar existindo, é como se a dor fosse necessária, a mola propulsora da vida. Lamentamos o tempo todo a existência da dor, mas a cultivamos com tamanho esmero que fico na dúvida se realmente queremos nos livrar dela...
 
 
Paula Maria

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