DESAPEGO

 

Já desapeguei dos bens materiais. Quando me dei conta, não tinha sido um real desapego, pois eu já não tinha nada. É fácil se desapegar, quando não se tem.
 
Em outro momento, foi difícil me permitir ter. Estava sem nada, praticamente tinha as roupas do corpo e trocava trabalhos por um teto, banho e comida. Surgiu uma oportunidade. Me propuseram virar coordenador de um centro terapêutico, um espaço de primeiro mundo. Junto vinha uma apartamento na cobertura, roupas de marca e um carro importado.
 
Foi difícil aceitar. Acreditava que nada daquilo era necessário. Mas meu coração vibrava por um sim, e aceitei.
 
Ainda assim, me sentia mal a cada vez que entrava no carro, no espaço ou na cobertura. A roupa estava apertada. A situação não estava confortável. Estava em conflito.
 
Resolvi entrar naquele incômodo, achando que me libertaria daquilo tudo e encontraria uma solução para seguir o meu caminho de autoconhecimento, com paz e tranquilidade. Desejava uma vida simplória, sem nada ter. Era muito confortável nada ter, nada possuir, nada em meu nome.
 
Mera ilusão e artimanha do destino, só me senti bem, só tive paz no meu caminho, quando quando aceitei o que recebi e passei a aproveitar e curtir o que estava à minha volta, quando entrei na roupa e aceitei que gostava, que era bom, que não era feio, que não era oposto ao crescimento interior.
 
Só foi possível caminhar, quando desapeguei, quando desapeguei das minhas crenças, quando soltei as bases de “certo e errado, bom e mau, bonito e feio” que me sustentavam. 
 
E ri. Ri de mim mesmo, da minha ignorância, das minhas limitações, da minha arrogância, das minhas certezas e incertezas,…
 
Num novo movimento da vida, me surgiu um outro caminho, e deixei o espaço, a cobertura, o carro, o dinheiro. Desapeguei do que tinha. 
 
Na verdade, não foi um desapego, pois não havia apego. Este é o paradoxo, quando aceitei o que tinha, passei a usá-lo, e não ele a me usar. Se tinha, tudo bem. Se não tinha, tudo bem também.
 
O desapego mais difícil, é o desapego daquilo que a gente acredita. 
 
 
Bruno Vicente

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