PROFANAÇÃO

 

 

Denúncias explodem por todos os lados, os abusadores são médicos renomados, líderes espirituais ilibados, gurus, colegas de trabalho respeitáveis e familiares amorosos, pessoas que à princípio estariam acima de qualquer suspeita; seu papel seria de proteção, direcionamento, amizade e cuidado. É, apenas seria...

 

Neste contexto, o abuso não é tão somente sexual, o que por si só já se faz suficientemente hediondo, mas o abuso aqui vai muito além; abusa-se da fé, da confiança, da entrega, da fragilidade, da doença, do acreditar. Abusa-se do ser humano, da maneira mais vil possível, aquela que apenas um outro ser humano é  capaz de conseguir, abusa-se do medo, da vergonha e da culpa que erroneamente as vítimas carregam.

 

Estupro coletivo, assédio de todas as naturezas. As bombas estouram como pipocas por todos os lados, é uma saraivada de horror, muitas delas desafiam nossa capacidade criativa e imaginativa de possibilidades de se fazer o mal.

 

Em meio a tudo isso, me pergunto, como é possível? Como um ser é capaz de impor esse tipo de barbárie a outro ser da sua mesma espécie? Outro igualzinho a você, idêntico em aparência, capacidade, inteligência, sentimentos e sensações. Me questiono, será mesmo que somos iguais? Será mesmo que o que toca aqui, toca aí? Será mesmo que o que me dói e dilacera, também te despedaça ou não? Será que é possível sermos tão iguais e tão diferentes assim? Será possível que o que me mata por dentro e destrói por fora te causa prazer? Mas como? Como é possível? E aquela coisa interna, aquele negócio ao qual chamamos de consciência, não existe? Não dói, não pesa, não causa dúvida? Pelo visto não,  porque você decide fazer, ou se causa, você é bastante resistente e tem muita força de vontade; porque você continua fazendo e segue a vida “muito bem, obrigado!”. Não são 5 ou 50, não... são 500, nãooo, claro que não, é muito mais que isso... São muitas mais, tantas caladas, perdidas, esquecidas, abandonadas, mortas de fato e de direito.

 

Hoje foi você, ontem era outro e amanhã será qualquer um, em qualquer lugar a qualquer momento... A luz do dia não te intimida, os testemunhos também não, seu cargo, seu dever, a ética ou a minha denúncia menos ainda, ao contrário, parece que tudo isso só te instiga, encoraja e o desafia a continuar...

 

E você continua, continuando a saciar o seu desejo, sua fome, sua necessidade, seu vício, exercendo seu poder perverso e ampliando seu prazer doentio e cruel através da minha dor.

 

Em meio a tudo isso, me indago se estamos vivendo tempos difíceis, hostis e ameaçadores ou se é apenas um tempo real, nu e cru, que torna público, notório e evidente o que sempre aconteceu de maneira silenciosa, sorrateira e escondida; e que ainda acontece hoje, está acontecendo agora neste exato momento, mas que atualmente pode ser exposto, escancarado, devassado para que todos vejam, saibam, tomem partido, contem, denunciem. Lamento vivenciar tudo isso. Por outro lado, festejo o saber de tudo isso, pois assim talvez consigamos construir um amanhã menos abusado.

 

Paula Maria

 

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