EXPOSTA



Falo de tudo, de todos, de mim e de você.

Gosto mesmo de falar. É minha maneira preferida de expressão.

Me expresso para não monopolizar sentimentos e sensações. Não gosto de aprisioná-las comigo. Acho que de alguma forma elas podem ser úteis. Hoje é minha história, amanhã pode ser a sua.

Quando divido, me inspiro imaginando o que você do outro lado pode estar pensando ou sentindo. Viajo nas infinitas possibilidades da tua reação.

Me expresso para dividir-me, ser muitas de mim, em vários lugares, em muitos tempos. Me exponho através desse falar, me apresento, me desnudo, me disponibilizo. É o meu jeito de viver minha eternidade, de exercê-la.

A cada fala, despejo um pouco de mim, abro espaço e ganho um pouco de você, ilustre desconhecido, talvez até inexistente. Às vezes penso que realmente não deve haver ninguém aí. Talvez eu fale pro nada, em vão. Não importa. Falo por mim, não por ti. Quero que ouças. Desejo íntima e secretamente que me siga, me persiga, me ame, me venere, me adore. Minha vaidade quer tudo isso.

Eu quero mesmo falar e falar e falar. Expressar meu sentir desenhado em letras, todas juntinhas, grudadinhas formando palavras e mais palavras, livres, desaprisionadas da minha cabeça. Falo para dar vida ao meu pensar, para que ele vá brincar, dançar e gargalhar noutras freguesias; ganhe o mundo e não se prenda ou se restrinja apenas a mim.

Que triste seria se todo pensamento fosse apenas do seu pensador.

Não! Concedo ao meu: trânsito, viagem, liberdade! É o mínimo que posso fazer a quem me acompanha sem julgamento, me guarda feito um anjo, tanto me deu e me dá, me acolheu e me acolherá, me fez e faz companhia quando todos já não estavam, já não eram, talvez nunca são. Dou asas a ele, para que voe alto, longe, num vôo livre, sem data nem obrigação de voltar, e que fique feliz; caso queira, onde está.

Paula Maria


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