Um ano de Pandemia e eu só quero Carboidrato


Era 15 de março de 2020, a notícia de uma pandemia mundial tomava conta das manchetes dos jornais, o Estado decretava quarentena e eu iniciava um isolamento social rigoroso. Cancelei a visita da minha mãe que aconteceria em poucos dias e redesenhei rapidamente o meu esquema de trabalho, decidi que sairia de casa apenas para ir ao mercado. Me considero “grupo de risco”. Apesar da idade e de não ter comorbidade, sofro de anemia quase crônica, efeito colateral de uma cirurgia bariátrica, e, frente a existência de um vírus que “poderia” (ainda não sabíamos) ser letal, decidi me recolher. Felizmente, sou parte da população privilegiada que consegue e pode trabalhar de casa.

Confesso, nunca pensei que um ano depois estaríamos ainda morando nesse looping, que mais parece um universo paralelo. Eu realmente achava que tudo estaria resolvido em 2, 3, 6 meses no máximo. Não tinha noção do que era uma pandemia, a abrangência e os efeitos devastadores que estavam por vir.

Eu sempre fui muito caseira, eu gosto, tenho prazer de ficar na minha casa. Mas, estar em casa por vontade é uma coisa, ficar em casa por necessidade, para manter a sua vida e a dos outros a salvo, é muito diferente. Não querer é completamente distinto de não poder.

Desse tal “não poder”, nasce a imensa vontade de fazer, porque parece que de algum modo estamos estagnados, perdendo tempo, assistindo a vida passar, escorrendo lentamente pelos dedos, se esvaindo de nós, nos abandonando... Vai surgindo uma angústia, cruza da ansiedade com a impotência. Ela cresce, ocupa mais e mais espaço e, pra se distrair, convida pra uma festa os amigos medo, insegurança e incerteza. Aí, batata, a falta de controle se torna evidente e imensa. A essa altura, já não tem mais volta, formou-se uma mistura perigosa, que somada à total falta de gestão e direcionamento governamental, torna-se explosiva. Tá dada a receita do desespero.


Desespero esse que todos nós estamos experimentando, em graus diferentes, é claro, pois quanto mais vulnerável se é, mais exposto se está, maior é o perigo enfrentado e o desespero instalado...


Para mim era ponto passivo, e ainda é, não sair. Entendi de cara que a única possibilidade de contenção plausível de uma doença contagiosa como a Covid era evitar ao máximo a proximidade entre as pessoas, pra o meu bem e o delas, afinal, era possível pra mim manter uma vida reclusa e deixar as ruas para quem de fato não pode ficar casa. Sou uma pessoa privilegiada e tinha chegado a hora colocar esse privilégio a serviço de todos. Ficar em casa era a única maneira de proteger a minha saúde, mas acima de tudo, era a minha maneira de respeitar e honrar quem estava no fronte da guerra.


Já que ficar em casa não era um problema para mim, aproveitei e mergulhei profundamente no meu trabalho, no meu relacionamento e em mim mesma. E, nesse mergulho, redescobri a cozinha. Ela sempre foi um ambiente familiar, sabe?! Eu me aventurava nela quase que diariamente, mas sem muita pretensão. Eu cozinhava porque precisava, tinha que alimentar e faltava grana pra comer fora todo dia. Ela não era um monstro pra mim, mas também não era um lugar que eu nadava de braçada. Eu passava por ali, fazia o que tinha de fazer e ia embora. Tinha uma distância de segurança, um hiato entre nós.


A comida e eu sempre tivemos uma relação complicada. Há aproximadamente 12 anos, após passar por uma cirurgia bariátrica, o meu olhar para comida vem sendo ressignificado. O meu interesse por comida, enquanto estudo e ato político, já vinha crescendo a passos largos, a ponto de eu dedicar duas teses de pós-graduação para o tema.


Mas em 2020, tudo mudou...

O interesse que era até então bastante acadêmico, passou a ser pessoal.


Eu encontrei na cozinha uma conexão profunda comigo mesma, com a minha essência, mais que isso, eu me reconectei com a minha existência, com tudo que sempre neguei. Tudo aquilo que eu preconceituosamente colocava na caixinha do menos, do “coisa de mulherzinha”, da negação da parte de mim que refletia a minha mãe, e que eu tanto queria negar, porque era exatamente nesse pedacinho que morava toda a minha insegurança, vulnerabilidade, fragilidade, delicadeza, amorosidade e que, eu sei lá porque, associava à fraqueza, incompetência, impossibilidade.


Eis que eu me reencontro comigo, com os meus valores e vontades. E esse encontro acontece dentro de uma cozinha, esquentando a barriga no fogão, descobrindo texturas, sabores e aromas, alimentando meu corpo, nutrindo minha alma e fortalecendo a minha relação amorosa com um tipo de amor que só o alimento tem para entregar...


Eu me vi nesse lugar. A cozinha se tornou um lugar mágico pra mim, mais que um refúgio. Eu não entro na cozinha só pra relaxar, eu entro na cozinha para me ligar, pra ativar. Ela aguça a minha criatividade numa frequência diferente. É tudo muito rápido, as decisões têm de ser agora. Tem fogo, faca, o agora é agora mesmo. Se passar do ponto, passou, não tem volta, não tem remediação, você pode ainda assim ter uma coisa boa, mas é uma outra coisa diversa daquela inicial.


Encontrei furtivamente a paciência, deixar o tempo das coisas fluir e me encaixar nele, estar a serviço, sair do comando e permitir que o tempo do assar da batata doce dite momentaneamente o meu tempo. Ser comandada, soltar um pouquinho o cordão e só me deixar ir e aproveitar. Sentir os cheiros e descobrir através deles que tá pronto, ou não, ainda falta um pouquinho, só mais um pouquinhoooo...


Foi mágico, é mágico e sempre será mágico... Me deixar movimentar pela transformação do alimento, dos sabores e saberes, da cultura e da história que contém uma fruta, um legume, uma erva, um tempero. Olhar pra carne e saber que um animal deu a vida dele para alimentar a sua, reverenciar essa cadeia e a partir dela descobrir que há uma variedade infinita de possibilidades, basta que a gente amplie o foco e se permita, ver e comer, além do óbvio...


Um ano de pandemia, muitas descobertas e redescobertas diárias, foram várias fases e ciclos. Se por um lado eu conheci uma nova de mim caindo pra dentro da minha cozinha, por outro eu voltei ao antigo, ao passado, ao lugar seguro, ao afago de mãe...


Mergulhando pra dentro das minhas panelas, viajei e cheguei na cozinha da minha infância, com mingau, gelatina, sagu, bolo de laranja, sopa de feijão, canja de galinha, banana frita, milho cozido, pão de queijo, arroz de forno, pão com ovo, bacon frito, batata com queijo, carne de panela, batata doce assada, nhoque, pão doce e macarrão gravatinha com molho de tomate - o meu preferido, aquele feito todo domingo só pra me agradar... #mãequesaudadedasuacomida


365 dias depois, eu só tenho vontade de comer carboidrato, quente, caldooooso, com bastante queijo e energia, uma energia que talvez, a essa altura, esteja meio em falta por aqui...


E assim eu me toquei que sim, eu ando comendo muuuuiiiito carboidrato. Sim! Eu quero e preciso de energia, mas vai além, eu quero carboidrato, porque só um carbo dos bons me teletransporta direto pra infância, pro meu lugar seguro, pro colo da minha mãe, que sempre deu e dá muito amor e cuidado em forma de comida... #comidaéafetosimsenhor


#Euquerocarbo, porque eu quero conforto, carinho, acalento, aconchego, proteção, porque eu quero amor, segurança, atenção e importância, tudo que não tá rolando no momento...


Viva a cozinha afetiva, a comida que nutri mais que o corpo, que supri a alma e alimenta relações ...


Paula Maria

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